4 lições do EFM – Berlinale para quem está desenvolvendo um documentário
Participar do EFM (European Film Market), durante a Berlinale, é um mergulho intenso no mercado internacional de cinema. Entre reuniões, cafés corridos e conversas de corredor, alguns aprendizados ficam muito claros, especialmente para quem está desenvolvendo um documentário e quer posicioná-lo globalmente.
As lições abaixo foram inspiradas no post compartilhado por Shrimoyee Chakraborty em seu Instagram, cineasta e produtora executiva da Índia, presente no EFM – Berlinale.
Organizamos estas orientações, que servem como guia prático para quem quer pensar seu projeto de forma estratégica desde cedo.
Se você está na fase de desenvolvimento, este texto é para você.
1. Encontre um coprodutor, e pense além das suas fronteiras
Buscar um coprodutor internacional não é apenas uma estratégia financeira. É uma estratégia de posicionamento.
Engajar um segundo país no projeto:
- Aumenta a credibilidade do filme no mercado internacional
- Amplia o acesso a fundos públicos e mercados regionais
- Facilita a circulação em festivais e mercados
- Constrói pontes culturais e políticas para o filme
Coprodução não deve ser pensada apenas quando o orçamento aperta. Ela pode ser parte do desenho estratégico do projeto desde o início.
Pergunta-chave para realizadores: Seu filme conversa com debates globais? Existe um país parceiro que possa fortalecer essa conversa?
2. Busque um sales agent ainda na fase de produção
Muitos realizadores só pensam em agente de vendas quando o filme está pronto. No mercado internacional, isso pode ser tarde.
Ter um sales agent ainda na fase de produção permite:
- Construir materiais de marketing com antecedência
- Ajustar posicionamento internacional
- Entender melhor qual é o público do filme
- Pensar estratégia de festivais desde o desenvolvimento
O agente de vendas não é apenas alguém que “vende” o filme. Ele ajuda a desenhar o percurso internacional da obra.
Dica prática: Prepare um teaser sólido, um one-pager claro e uma proposta de público bem definida antes de buscar esse agente.
3. Encontre programadores de festivais, antes de inscrever seu filme
O EFM (e os mercados internacionais em geral) não é apenas sobre financiamento. É também sobre relacionamento.
Conversar com programadores de festivais na fase de desenvolvimento:
- Ajuda a entender o perfil curatorial de cada festival
- Permite testar o discurso do projeto
- Gera conexões que podem fazer diferença no momento da estreia
Festivais não são apenas vitrines. São parceiros estratégicos.
Importante: Não se trata de “garantir seleção”, mas de entender como o seu filme se posiciona dentro do ecossistema global de documentário.
4. A Berlinale é mais amigável para documentários do que o Marché du Film em Cannes
Segundo Shrimoyee Chakraborty, a Berlinale — e especialmente o EFM — oferece um ambiente mais aberto ao documentário.
Comparado ao Marché du Film, em Cannes:
- Há maior presença de players dedicados ao documentário
- O ambiente é mais propício para conversas aprofundadas
- Existe um ecossistema mais consolidado de impacto, direitos humanos e cinema político
Isso não significa que Cannes não seja relevante. Mas significa que cada mercado tem seu perfil.
Estratégia inteligente: Entenda onde o seu filme se encaixa melhor antes de investir recursos em viagens e inscrições ou de pensar sua estratégia de captação de fundos para participar no mercado (Alguns estados do Brasil por exemplo possuem mecanismos de fomento à participação em eventos internacionais - se informe no site da Secretaria de Cultura ou Economia Criativa da sua localidade).
Mercado é estratégia, não improviso
Participar de mercados como o EFM não é apenas sobre estar presente. É sobre saber o que buscar.
O posicionamento internacional começa na fase de desenvolvimento.
Coprodução, agente de vendas, diálogo com festivais e escolha do mercado certo são decisões estruturais — não detalhes finais.
Para realizadores independentes, especialmente do Sul Global, isso é ainda mais importante. Planejamento estratégico pode significar sustentabilidade, circulação e impacto real para o filme.
Se você está desenvolvendo um documentário agora, talvez a pergunta não seja apenas “como financiar?”, mas:
Como posicionar meu filme no mundo?
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