A Fabulosa Máquina do Tempo e o poder de imaginar o próprio destino
Quando A Fabulosa Máquina do Tempo estreou e começou sua trajetória internacional, muita gente descobriu um daqueles documentários que parecem pequenos à primeira vista — mas que crescem dentro da gente com o passar dos dias.
Por Vito Ribeiro
Quando A Fabulosa Máquina do Tempo estreou e começou sua trajetória internacional, muita gente descobriu um daqueles documentários que parecem pequenos à primeira vista — mas que crescem dentro da gente com o passar dos dias.
Dirigido por Eliza Capai e exibido na mostra Generation Kplus do Festival Internacional de Cinema de Berlim, o filme levou para a Berlinale algo que o cinema brasileiro tem de mais forte: intimidade, verdade e sensibilidade social. A presença em Berlim não foi apenas simbólica. Foi o reconhecimento de que histórias contadas a partir das margens também dialogam com o mundo.
O documentário acompanhou um grupo de meninas que, entre brincadeiras e encenações, reinventaram o próprio cotidiano. Elas falaram de casamento, religião evangélica, diferenças de gênero, alcoolismo e expectativas sobre o futuro — mas nunca como quem faz discurso. Falaram como quem vive. Como quem observa os adultos e tenta entender o mundo antes mesmo de crescer.
E talvez aí esteja o ponto mais bonito do filme: ele nunca tratou essas meninas como personagens ilustrativas de um tema social. Elas foram protagonistas de suas próprias narrativas. Quando encenavam situações inspiradas na vida das mães e avós, não estavam apenas repetindo histórias. Estavam reorganizando memórias, testando versões, imaginando saídas. Era quase como se o cinema virasse, de fato, uma máquina do tempo.
Produzido por Globo Filmes, GloboNews, Amana Cine e Canal Brasil, o longa encontrou equilíbrio raro entre delicadeza e contundência. Nada era exagerado. Nada era forçado. O que aparecia na tela era um Brasil íntimo, feminino, atravessado por tradição e desejo de mudança.
Depois da estreia, ficou claro que o impacto do filme não estava em grandes reviravoltas narrativas, mas nos silêncios, nos olhares, nas encenações improvisadas que diziam mais do que qualquer entrevista formal poderia dizer. Eliza Capai conduziu tudo com escuta atenta, permitindo que a imaginação infantil conduzisse a estrutura do filme.
O Criticópolis marca presença na Berlinale 2026 para uma conversa exclusiva com a diretora Eliza Capai. Michel Santos discutiu a estreia mundial de "A Fabulosa Máquina do Tempo", documentário que representou o Brasil na prestigiada mostra Generation de Berlin.
Para quem acompanha documentários na Bombozila, A Fabulosa Máquina do Tempo se destacou justamente por isso: por confiar nas personagens. Em vez de explicar o Brasil, o filme mostrou o Brasil sendo sentido por quem ainda está aprendendo a nomeá-lo.
A passagem pela Berlinale reforçou a relevância da obra, mas a força dela não dependia de prêmio. Dependia do encontro com o público. E quem assistiu dificilmente saiu indiferente.
No fim, o documentário deixou uma pergunta silenciosa: quando as meninas imaginam o futuro, o que elas estão tentando transformar? Talvez a resposta esteja na própria essência do filme — imaginar já é um ato de mudança.
E esse é o tipo de cinema que continua ecoando muito depois dos créditos finais.
Assista ao documentário "Severina" - Primeiro filme de Eliza Capai