Cinema comunitário: pequenos espaços, grandes encontros

Quando li, anos atrás, sobre os chamados “desertos de cinema” em um artigo da Newsweek, a imagem ficou comigo. Desertos não são apenas lugares vazios. São lugares onde algo deixou de existir — ou nunca teve chance de florescer.

Cinema comunitário: pequenos espaços, grandes encontros

Por Vito Ribeiro

Quando li, anos atrás, sobre os chamados “desertos de cinema” em um artigo da Newsweek, a imagem ficou comigo. Desertos não são apenas lugares vazios. São lugares onde algo deixou de existir, ou nunca teve chance de florescer.

A pandemia aprofundou esse cenário. Salas fecharam, programações encolheram, o streaming virou regra. Mas, sendo honesto, o problema já estava aí antes. O cinema vinha se afastando das pessoas comuns, das bordas da cidade, das comunidades periféricas, rurais, costeiras, dos bairros que não entram na rota cultural “oficial” ou que nunca tiveram uma sala de cinema.

E isso não é só sobre entretenimento. É sobre convivência. É sobre repertório. É sobre quem tem direito a contar e a ouvir histórias.

No Brasil, a resposta a esses desertos nunca veio do mercado. Veio de iniciativas que entenderam o cinema como ferramenta social. A Bombozila é um exemplo disso. Ao trabalhar com documentários, formação e impacto social, ela mostra que exibir um filme é um ato político, no melhor sentido da palavra. Pode ser o início de uma conversa difícil. Pode ser um disparador de mobilização. Pode ser um gesto de pertencimento. Esse tipo de iniciativa não espera que o público vá até o cinema. Ela cria o cinema onde o público está.

E é aqui que penso especificamente na cidade de Niterói. Quem olha de fora pode achar que a cidade está bem servida culturalmente. Mas basta atravessar a mesma para perceber que a oferta de cinema diverso é rarefeita. Em Piratininga, Itaipu, Engenho do Mato e regiões deste entorno por exemplo, não há espaços de exibição regular de filmes independentes ou obras que dialoguem com a realidade local. Há iniciativas cine-clubistas, que em geral operam com frequências varias, por sua própria conta.

E isso é curioso, porque vivemos em um território profundamente atravessado por temas urgentes: mudanças climáticas, urbanização, pressão imobiliária, insegurança alimentar por parte das comunidades costeiras, apagamento das memórias tradicionais. Onde as estórias de resistência precisam de tela de difusão.

A Casa Doc, sala de cinema comunitário localizada em Piratininga, nasce justamente nesse intervalo. Não como uma sala comercial, mas como um espaço de encontro. Um lugar onde o cinema não é fim, é meio. Meio para conversar sobre o mar. Meio para registrar a memória de quem vive da pesca. Meio para formar jovens que querem aprender a contar suas próprias histórias com câmera e edição.

Se os “desertos de cinema” revelam ausência de infraestrutura, eles também revelam ausência de políticas públicas.

O streaming pode entregar conteúdo infinito. Mas ele não cria comunidade. Ele não substitui a roda de conversa depois da sessão. Não substitui o olhar atravessado na sala escura quando um filme toca em algo comum.

O futuro do cinema não está em competir com as plataformas. Talvez esteja em recuperar aquilo que sempre foi sua força: o encontro.

Iniciativas como a Bombozila mostram que é possível articular rede, impacto e formação. Juntamente com a Casa Doc, pode fazer o mesmo a partir do nosso território costeiro, conectando audiovisual, educação, tecnologia e justiça ambiental.

Porque, no fundo, não estamos falando apenas de filmes. Estamos falando de quem tem direito a imaginar o próprio futuro. E isso começa quando as luzes se apagam, a tela acende, e a gente percebe que não está sozinho.

Vito Ribeiro: documentarista e educador social baseado no Brasil, fundador da plataforma de streaming Bombozila.

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