Cinema, imagem, política e as urgências do nosso tempo
A imagem deixou há muito tempo de ser apenas representação, ela passou a ser prova, denúncia, memória e mobilização.
Por: Vito Ribeiro
Quando perguntaram a Wim Wenders, durante a coletiva na Festival Internacional de Cinema de Berlim, sobre um possível silêncio da Berlinale em relação a Gaza, a resposta, mais cautelosa do que muitos esperavam, reacendeu um debate antigo: afinal, qual é o papel do cinema diante das graves violações de direitos do nosso próprio tempo? A pergunta não é nova. Mas em se tratando do genocídio em Gaza, ela se torna incontornável.
Vivemos numa sociedade mediada por imagens. Vídeos circulam nas redes sociais em tempo real. Plataformas de streaming distribuem narrativas globais com alcance imediato. Câmeras de celular registram abusos, protestos, guerras, injustiças. A imagem deixou há muito tempo de ser apenas representação, ela é também prova, denúncia, memória e mobilização.
Não são poucos os filmes que contém imagens, registros de fatos e momentos, que também foram usados em tribunais, julgamentos e denúncias em organismos internacionais. Filmes que extrapolam a tela e a experiência da sala escura, e ganham o mundo para promover transformações.
Quando o presidente do júri de um festival como Berlinale reivindica para si o poder de determinar qual é "a linguagem do cinema" no contexto político, mesmo sendo Wim Wenders, se abrem muitas portas para entendermos o cinema e os festivais que existem nas margens da grande indústria. Estes sim dotados da vozes que carregam a linguagem do possível, que celebram um acontecimento audiovisual que carrega a nossa pedagogia do oprimido, muitas vezes como um grito de sobrevivência e não como uma experiência artística.

Nesse contexto, o documentário independente de impacto social redobra sua força, que ultrapassa o circuito tradicional. Ele não depende apenas da consagração em tapetes vermelhos. Ele nasce muitas vezes da urgência. Surge em coletivos, em produções independentes, em territórios marcados por conflito e desigualdade. E encontra público em festivais locais, em mostras comunitárias, em cineclubes, em plataformas alternativas de streaming que se organizam fora do eixo hegemônico.
Nos países do chamado “Sul Global”, essa movimentação é ainda mais visível. Festivais independentes e espaços de exibição comunitária surgem como brechas. Como lugares onde vozes que dificilmente atravessariam os filtros dos grandes exibidores podem ser ouvidas. São territórios onde a censura econômica, aquela que não proíbe explicitamente, mas inviabiliza, encontra mais resistência.
O documentário político contemporâneo não está apenas interessado em registrar. Ele quer provocar deslocamentos. Ele quer tensionar consensos. Ele quer lembrar que justiça social não é pauta abstrata, mas demanda concreta. Por isso, dissociar o poder da imagem da urgência das transformações sociais é ingenuidade, ou conveniência.

O cinema é linguagem artística, sim. Mas é também ferramenta de memória e disputa simbólica. Caminha de mãos dadas com as narrativas urgentes do seu tempo, mesmo quando tenta disfarçar esse vínculo. Se os grandes festivais parecem, por vezes, contidos e acomodados por suas próprias estruturas, a resposta está em fortalecer o ecossistema fora deles. Plataformas independentes, mostras regionais, festivais temáticos locais, redes de exibição alternativas e iniciativas comunitárias que estão redesenhando o mapa de circulação das imagens.
O Brasil por exemplo tem uma grande quantidade de festivais de cinema de pequeno e médio porte, que foram criados da aliança entre produtores culturais, cineastas, juntamente com movimentos sociais dos mais diversos. Mecanismos de encontros audiovisuais, e agitação cultural que surgem essencialmente como tela de luta.

O cinema não é neutro. E num mundo saturado de vídeos, fake news e desinformação, sua responsabilidade é ainda maior.
Vito Ribeiro: documentarista e educador social baseado no Brasil, fundador da plataforma de streaming Bombozila.


