Curadoria Comunitária e Exibição de Impacto Social

Reflexões para distribuição audiovisual no contexto das plataformas alternativas de streaming e dos cine clubes comunitários

Curadoria Comunitária e Exibição de Impacto Social

Reflexões para distribuição audiovisual no contexto das plataformas alternativas de streaming e dos cine clubes comunitários

Por: Vito Ribeiro*

Introdução

Buscamos com este texto, organizar algumas reflexões e práticas que tem sido rotina na atuação da Bombozila - tanto em sua plataforma de streaming como em suas exibições cine-clubistas comunitárias - marcada por processos compartilhados de criação, produção e distribuição de documentários de impacto social. Vale também mencionar que dada a abrangência da nossa atuação, podemos aprender de processos diversos que vão desde oficinas de formação com públicos variados, até o momento em que as produções audiovisuais ganham seu circuito de distribuição. O que nos permite aproximar de metodologias e entendimentos que podem ser modestas contribuições para o fazer do audiovisual comunitário e de impacto social em diferentes instâncias, porém baseadas em aprendizados práticos.

Com Bombozila experimentamos repensar as decisões em torno das curadorias e seleções de conteúdos audiovisuais. Nos permitindo questionar o papel de “quem decide” o que será visto em mostras e festivais locais, principalmente na função solitária de notório-saber do "curador", para tentar outros caminhos para esta feitura. Também analisamos algumas experiências cine-clubistas para nos acercar da compreensão sobre a exibição de impacto. Caminhos percorridos que são desafiadores, e ao mesmo tempo inspiradores, visto que este outro audiovisual que fazemos - junto a uma rede internacional de cinema de impacto - cada vez mais cresce e exprime seus resultados em transformações sociais concretas.

Queremos deixar aqui uma contribuição oriunda do pensar-fazendo, característica que marca nossa atuação não só pelos efeitos da precariedade, mas sobretudo como posição política em torno do cinema documental insurgente e militante.

Quem decide o que uma comunidade assiste?

Tanto em nosso catálogo online, disponível em Bombozila.com, como em nossos circuitos de projeções públicas, sempre nos perguntamos coisas como:

a) quem decide o que vai ser assistido?
b) qual a pertinência de determinados conteúdos em detrimento de outros?
c) como contexto-territorial e obra audiovisual se encontram em um circuito de impacto?


Algumas das muitas inquietações que nos abrem portas para coletivizar as decisões em torno das curadorias e seleções de filmes que distribuímos, online e presencialmente.

Para o catálogo online da plataforma, há dez anos vimos praticando de forma colaborativa a construção desta curadoria. Experimentando formas de encorajar a audiência para filmes que as comunidades, movimentos, territórios e atores sociais desejam-precisam assistir. Trabalhando em conjunto com realizadores e produtores documentais, mas também com movimentos sociais, grupos comunitários e organizações da sociedade civil, para elencar um catálogo de filmes necessários para a instrução das lutas.

Quando preparamos uma seleção de filmes para exibição comunitária local, imaginamos previamente qual seria o “efeito” das obras em seus receptores. Como a conexão entre o ato de assistir-e-refletir, esta sim uma experiência individual, será desdobrado em refletir-e-compartilhar, desta vez coletivamente.

Quando nossas projeções são seguidas de debates, conversas ou troca de idéias posteriores, experimentamos falar sobre algo que recém nos impactou, sobre uma história que acabamos de assistir. O poder do audiovisual também consiste em nos fazer lidar com os resquícios de imagem que nos ficam, com as sequências e relatos específicos que nos marcaram. Para logo criarmos aproximações entre nós mesmos e os protagonistas, ou entre o território do filme e o território habitado.

Filmes que se integram à agenda das causas sociais e se tornam eles mesmos mais um instrumento da luta.

Pablo Neruda nos disse: “A poesia não é de quem escreve, mas de quem precisa dela”, e o mesmo vale pros documentários de impacto social, eu diria. Seu pertencimento aos sujeitos - personagens ou não - que necessitam dele é o que fará de um documentário uma obra relevante e pontual. Não cumprirá o filme seu papel, se não puder acionar esse pertencimento e senso de imprescindibilidade da própria história. Em caráter local ou global, é esse pertencer comunitário, das pessoas que se veem no lugar de protagonista, que fará do filme poderoso em seu caminho de transformar realidades.

Elaborar a curadoria de uma mostra, festival ou cineclube é tarefa repleta de desafios e exigências. Destas que serão determinantes para o impacto social em sua audiência, e o primeiro passo para os debates que visem despertar conversas negligenciadas ou estigmatizadas no grupo.

Como filme e debate se interconectam no espaço do real?

Um bom debate após a exibição de documentário seria aquele em que é possível criar uma extensão da história fílmica no espaço real do grupo presente.  

Quando a roda de conversa é parte complementar da narrativa audiovisual que acabamos de ver, experienciamos traçar outros caminhos, desdobramentos, paralelos e acercamentos, que vão nos levar para a implicação da história projetada com a história vivida pelos espectadores.

Neste momento de oralidade comunitária em que as diversas vozes locais podem complementar a narrativa dos filmes, construímos esta ponte entre os “reais” - o representado no filme e o vivido pelos espectadores - sob o efeito do filme.

Seguiremos elaborando...


Vito Ribeiro: documentarista e educador social baseado no Brasil, fundador da plataforma de streaming Bombozila. Vito está trabalhando em um guia prático de Curadoria Comunitária que em breve estará disponível aqui neste site para download.