Mark Ruffalo, Javier Barden, Tilda Swinton e mais 100 artistas criticam o silêncio da Berlinale sobre Gaza
Mais de 100 profissionais do cinema internacional, entre eles Mark Ruffalo, Javier Bardem, Tilda Swinton, Ken Loach e o brasileiro Fernando Meirelles, assinaram uma carta aberta criticando o que classificam como “silêncio” da Berlinale em relação ao conflito em Gaza.
Por CineNinja
Mais de 100 profissionais do cinema internacional, entre eles Mark Ruffalo, Javier Bardem, Tilda Swinton, Ken Loach e o brasileiro Fernando Meirelles, assinaram uma carta aberta criticando o que classificam como “silêncio” da Berlinale em relação ao conflito em Gaza. O documento, divulgado com exclusividade pela Variety durante a edição de 2026 do Festival de Berlim, já reúne 104 assinaturas de artistas e cineastas que participaram do evento ao longo dos anos.
Na carta, os signatários afirmam estar “consternados com o envolvimento da Berlinale na censura de artistas que se opõem ao genocídio contínuo de Israel contra os palestinos em Gaza” e defendem que o festival assuma uma posição pública. O texto também rebate declarações do presidente do júri desta edição, Wim Wenders, que afirmou que o cinema seria “o oposto da política”. Para os artistas, “você não pode separar o cinema da política”.
O documento acusa o festival de reprimir manifestações públicas em defesa dos direitos palestinos e sustenta que, por ser majoritariamente financiado pelo governo alemão, a Berlinale tem responsabilidade institucional e moral de se posicionar diante do que chamam de “genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra contra os palestinos”. A carta lembra ainda que o festival já se manifestou anteriormente sobre violações de direitos humanos no Irã e na Ucrânia.
Os signatários argumentam que há uma mudança de postura no cenário internacional do audiovisual, mencionando festivais que aderiram ao boicote cultural a Israel e mais de 5 mil profissionais que se recusaram a colaborar com instituições israelenses consideradas cúmplices. “Esperamos que as instituições da nossa indústria se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua a ser infligida aos palestinos”, afirma o texto. O documento conclui: “Convocamos a Berlinale a cumprir seu dever moral e declarar claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra contra os palestinos.”
Leia o texto divulgado pela Variety, abaixo:
“Carta aberta à Berlinale – 17 de fevereiro de 2026
Escrevemos como profissionais do cinema, todos nós participantes atuais e antigos da Berlinale, que esperamos que as instituições da nossa indústria se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua a ser perpetrada contra os palestinos. Estamos consternados com o envolvimento do Festival de Berlim na censura de artistas que se opõem ao genocídio em curso perpetrado por Israel contra os palestinos em Gaza e com o papel fundamental do estado alemão em permiti-lo. Como afirmou o Instituto de Cinema Palestino, o festival tem ‘policiado cineastas, mantendo ao mesmo tempo o compromisso de colaborar com a Polícia Federal nas suas investigações’.
No ano passado, cineastas que se manifestaram em defesa da vida e da liberdade dos palestinos no palco da Berlinale relataram ter sido repreendidos agressivamente por parte da direção do festival. Um cineasta teria sido investigado pela polícia, e a direção do Festival de Berlim insinuou falsamente que o comovente discurso do cineasta – fundamentado no direito internacional e na solidariedade – era ‘discriminatório’. Como outro cineasta relatou à Film Workers for Palestine sobre o festival do ano passado: ‘Havia uma sensação de paranoia no ar, de falta de proteção e de perseguição, algo que eu nunca havia sentido antes em um festival de cinema’. Nos solidarizamos com nossos colegas na rejeição a essa repressão institucional e ao racismo anti-palestino.
Discordamos veementemente da declaração feita por Wim Wenders, presidente do júri da Berlinale 2026, de que fazer cinema é ‘o oposto de fazer política’. Não se pode separar uma coisa da outra. Estamos profundamente preocupados com o fato de a Berlinale, financiada pelo estado alemão, estar contribuindo para a prática daquilo que Irene Khan, Relatora Especial da ONU para a Liberdade de Expressão e Opinião, condenou recentemente como o uso indevido, por parte da Alemanha, de legislação draconiana ‘para restringir a defesa dos direitos palestinos, intimidando a participação pública e reduzindo o debate na academia e nas artes’. Foi exatamente isso que Ai Weiwei descreveu recentemente como a Alemanha ‘fazendo o que fez na década de 1930’ (concordando com seu entrevistador, que sugeriu que ‘é o mesmo impulso fascista, mas com um alvo diferente’). Tudo isso em um momento em que estamos descobrindo novos detalhes horríveis sobre os 2842 palestinos ‘evaporados’ pelas forças israelenses usando armas térmicas e termobáricas de fabricação americana, proibidas internacionalmente. Apesar das abundantes evidências da intenção genocida de Israel, dos crimes de atrocidades sistemáticos e da limpeza étnica, a Alemanha continua fornecendo a Israel armas usadas para exterminar palestinos em Gaza.
A maré está mudando no mundo do cinema internacional. Muitos festivais de cinema internacionais endossaram o boicote cultural ao apartheid israelense, incluindo o Festival Internacional de Documentários de Amsterdã, o maior do mundo, bem como o BlackStar Film Festival, nos EUA, e o Film Fest Gent, o maior da Bélgica. Mais de 5000 profissionais do cinema, incluindo figuras de destaque de Hollywood e do cenário internacional, também anunciaram sua recusa em trabalhar com empresas e instituições cinematográficas cúmplices dos israelenses.
No entanto, o Festival de Berlim ainda não atendeu às demandas de sua comunidade para emitir uma declaração que afirme o direito dos palestinos à vida, à dignidade e à liberdade; para condenar o genocídio israelense em curso contra os palestinos; para se comprometer a defender o direito dos artistas de se expressarem livremente em apoio aos direitos humanos dos palestinos. Isso é o mínimo que pode – e deve – fazer.
Como afirmou o Instituto Palestino de Cinema, ‘estamos consternados com o silêncio institucional da Berlinale sobre o genocídio dos palestinos e com sua relutância em defender a liberdade de expressão dos cineastas’. Assim como o festival já se manifestou claramente no passado sobre as atrocidades cometidas contra pessoas no Irã e na Ucrânia, apelamos ao Festival de Berlim para que cumpra seu dever moral e declare claramente sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra de Israel contra os palestinos, e para que cesse completamente seu envolvimento na proteção de Israel contra críticas e pedidos de responsabilização.”